O passado é lembrado como um filme metódico; desses filmes que assistimos com sonolência nos ouvidos e cobertor nas pernas; desses filmes que apenas entendemos o todo e não as partes; desses filmes que são assistidos até pela mobília e penumbra da casa. Enfim, vai aí um trecho do passado. Mostra o cinematógrafo...
Ah, o escuro. Ah, a névoa. Estou inquieta.. será a tarde, será o céu, serão os espelhos bondosos que me cercam? Talvez. O tempo passa lentamente aqui em Esel-Aemp. Cada minuto flui preguiçosamente sob o relógio, que se espreguiça ao passar das horas. O frio congela tudo, tudo. Menos Cervantez.
Cervantez... não consigo decifrá-lo, estou inquieta. O sujeito misterioso passa horas e horas dessa lentidão vagando pelo terreno da ilha, com um olhar intenso perfurando a bruma insular. Está procurando por algo? Seu corpo, manso e simples, se torna úmido com o árduo diário por qual passa. Vejo-o digno percorrendo a maré.
E eu? Eu estou a sós. Livre como nunca, para perceber o minucioso, para desvendar o constante. Observo, reflito, penso. E descubro, como! Descobri: Cervantez, átrio de meu observatório, é Espanhol. Vem do Vietnã. É pesquisador antropológico. Eu vi, eu vi, Cervantez. Hoje, antes de partir em seu trajeto rotineiro, parou para falar com Dona Natalina à porta. Conversavam aos sussurros. Natalina deu ao homem um objeto redondo, metálico, bonito. Este, em seguida, saiu para caçar as ondas.
Estou curiosa. Mais que curiosa; estou confusa! Tenho um pressentimento... se bom ou mal, apenas o tempo dirá. Mas é um pressentimento. Cervantez não é um marujo qualquer... mas por quê? O que ele busca, dia após dia, na ternura do mar? O que recebeu de Natalina? Ou será minha imaginação? Não, eu vi. Se vi, é porquê existe algo ali.. Portador de segredos e causador de devaneios, o quê esconde?
De longe, vejo sua figura: pequena, como a de um inseto. Distante...mas se aproximando. Cervantez... vou satisfazer minha incerteza.
Kata Porttis
"Tais Lembranças"
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