sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Pista

       Naquela viagem tudo que tremia era um assalto à cabeça. O passarinho em seu trajeto, o vento que sussurrava pelas gramas, estas mesmas gramas que por sua vez balançavam como se fossem dançar. Mas havia justificativa; Zaratrusta havia, mesmo, desaparecido, não havia? Não era a minha imaginação; havia, sim, uma incógnita. O problema era que o resto da equação permanecia intacta. 
      O primeiro dia foi o pior. Cervantez ainda não se entendia com a busca, ou talvez comigo; penso que se não fossem seus modos ele teria desistido antes da chegada da noite. Mas não desistiu. 
Nos quatro dias que levamos até Mapua não encontramos sinais de Zaratrusta. Quer dizer, dissemos que não. A verdadeira história é essa: 
      Na tarde do segundo dia, enquanto descansávamos, tive um pressentimento. Comecei a caminhar pela vegetação ressecada, me aproximando de um pequeno arvoredo. Tinha a certeza de estar no caminho certo, eu sabia que havia algo aí. E havia. Encontrei uma tartaruga com quatro manchas amareladas em suas costas. Era uma pista, eu sabia; não existiam tartarugas assim naquela região! Tinha que ser algum experimento biológico do Zaratrusta! Cervantez me disse que estava errada, e deixamos ali o assunto. Mas eu sabia que aquele animal significava muita coisa; segui esperançosa.  
       Quando chegamos em Mapua estava tarde, e fomos dormir sem falar em Zaratrusta. Mas eu continuava eserançosa..

Kata Porttis
"Tais Lembranças"

sábado, 13 de julho de 2013

Intermezzo de névoas

    "Acordo no meio desta noite. Quem me acordam são as empoeiradas impressões da velha Ezel-Aemp. Deveria dar procedência à história. Contar o que aconteceu conosco na manhã depois da busca, na igreja, no monte. Mas faço aqui um intermezzo, ou melhor, minha insônia o faz.
    Não durmo por causa dela. Sempre ela. Será ela mesmo a culpada? Que inebriante é o passado. Mas se eu não existisse, ou não houvesse permanecido naquela ilha, ela seria apenas uma Katalín inofensiva. Doce e essencial; esquecida e despercebida nas suas esquisitices. Mas... Quantas névoas umedecem o meu sono. As névoas. Essas fumaças insípidas que me atormentam e contagiam o passado. Mistura-se o real e o irreal numa atmosfera tenebrosa. Afogo-me na areia seca da praia. Praia de Ezel-Aemp, é claro. Afogo-me em tudo. Na areia daquele passado, no oceano daquele passado e principalmente, afogo-me nas névoas que afogam o tempo. O tempo... O tempo não existe. E seria melhor que eu não existisse.
    Percebo que a bruma pretérita começa a deixar zonza minha mente. Sorte a minha! Ainda percebo algo! Vou espreguiçar-me."

"Memórias da Ilha", Cervantez Vortibus

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Ao bosque!

    Eu me senti na obrigação de acompanhar Kata naquela busca. E isso foi o que fiz. Busquei um capote de camurça dentro de casa e fomos àquela peregrinação. Meus olhares eram unicamente para as imperfeições de Kata. Hoje compreendo que as imperfeições eram minhas. Mas eu era um exilado de um Cervantez de alma quieta e pensamento tímido; agora eu vivia num Cervantez de alma ataviada e pensamento extravagante. Mudei-me para a Ilha e desde então denominei-me rei e sábio. Na realidade eu não era nem uma coisa e nem outra.
    Mas enfim, fomos à busca. Kata andava rapidamente. Eu me esforçava para alcançá-la, mas uma raiva ofegante dentro de minha caixa craniana logo me desmotivava. Parecia que tudo em Katalín era um motivo para minha consciência aguçar os nervos do corpo e avermelhar minha cabeça. Mas acho que era efeito do meu desprezo por aquela busca. Gritava para que ela andasse mais lentamente. Procurei uns métodos para me acalmar. Procurei olhar as árvores, as pedras, um lagarto que passasse ou mesmo o céu que já se coloria de crepúsculo para logo se descolorir de sombra. Rapidamente chegamos à margem do lago Wacharia. Estava tão belo, quieto e sereno. Refletia o céu como se fosse um enorme espelho que algum homem colocara naquele espaço desflorestado. Os olhos de Kata refletiam também algo. mas acho que era algo mais profundo, mais incógnito. Ela olhou para o lago e disse "E se Zaratrusta fora engolido por essas águas!?". Que absurdo! Até o vento se pôs contra essa afirmação, abafando sua voz e não deixando que ecoasse para o resto da natureza. Andamos e andamos mais. Seguimos a margem do grande lago que nos olhava e refletia. O escuro da noite chegava. Olhei o céu e algo na memória disse-me que quando o escuro chega é hora de estar em casa. Era a voz de mamãe.
    - Voltemos. É tarde. - Alertei Kata.
    - Certo. Por hoje, basta! Peguemos um atalho por aqui.
    Pegamos o atalho, e não me lembro bem se dei uns palpites para a mudança de caminho, só sei que irritei-me quando retornamos aos pés daquele mesmo lago que estivemos há pouco tempo. Maldisse Kata em meus pensamentos. Minha sonolenta consciência chamou-a de insana umas dez ou trinta vezes. Certamente aquela escuridão da noite não nos deixaria voltar à vila sem algum risco maldoso que a natureza costumava dar de brinde aos enxeridos noturnos. O risco seria menor se subíssemos mais a montanha ao invés de descê-la. Fizemos isto e fomos pedir abrigo ao bispo da igrejinha do alto do monte. A noite era tão escura e escorregadia que não pude ver a igreja direito, portanto não a descreverei. O bispo nos atendeu com extrema má vontade. Também já era de se esperar que o bispo se irritasse com a perturbação de seu sagrado descanso. Era já bem velhinho e tinha um bom tanto de problemas nas costas; um bico-de-papagaio ali, uma costela fraturada aqui e muitos outros incômodos de velhice.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Como Sempre Há Algo de Esquisito

        Quero documentar uma situação cuja miséria ainda não contaminara esta solenidade de diário: Zaratrusta sumiu! Sim... sua figura esteve em insensata falta na ilha; sentia essa ausência em todo lugar, foi e é um sentimento vil. Esse pavor vinha vindo, vinha vindo, súbito, e com cada reconhecimento de sua existência minha consciência inchava.
         Zaratrusta saiu, logo depois da chegada de Cervantez. Não demoraria muito, foi apenas visitar outra aldeia; fica a apenas alguns dias de distância de Esel-Aemp. O ciêntista, o quase-excêntrico, não estipulou data de retorno, mas temi alguma desventura: já se passavam as quatro infindas semanas de um mês.
        Precisava fazer algo! Me perguntei, "será?", e respondi, "sim, absolutamente".  Absolutamente, precisava agir; absolutamente, havia algo de esquisito. E, não-absolutamente, havia algo de capricho momentário. Cervantez aparece e Zaratrusta some. Certamente, alguma manha do universo em criar essa coincidência...
         Ia buscá-lo! Ia. Se havia algo de esquisito, e sempre há, desvendaria seu enigma e descobriria a sua incógnita. Lembro dessa inquietude. Pensava dia e noite na viagem a ser feita; eu iria a sós ou com algum companheiro? Faria a rota de sempre ou devia variá-la para melhor procurar o sujeito desaparecido? Eram tantas dúvidas, girando em torno de meus pensamentos como um grupo de crianças descuidadas que brincam e atrapalham o sereno de um bosque, afugentando os passarinhos.
       
Kata Porttis
"Tais Lembranças"

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A insanidade pode exilar-se em Ezel-Aemp, mas tem de tomar certos cuidados

    Os dias em Ezel-Aemp passavam como uma valsa, serenos e perenes. E no meio desta valsa havia Kata, mais próxima de uma sinfonia, cheia de inconstância, cheia de allegros e andantes. Eu não era temerário, nem séssil no centro de tal bailado. Apenas dançava com meus próprios passos que não feriam a valsa nem a sinfonia. Mas deixemos a musicalidade da ilha de lado.
    Katalín causava-me uns incômodos. De tão doce que era, deixava a ponta de minha língua amarga. Mas aquela amargura só me fazia querer desvendar mais a figura tão interessante que viera da Hungria para desvairar-se numa ilha quase deserta. Sim, ela estava à margem do desvairo... Mas acho que não chegou a banhar-se nas águas da loucura... Quem sabe qual foi realmente o fenômeno ocorrido naquela atmosfera da Nova Zelândia? As vezes me preocupava com isso, mas depois concluía que em Ezel-Aemp tudo podia vir a se desenrolar, até mesmo a insanidade... Ou algo semelhante...
    Como já escrevi, uma certa vez ela preocupava-se com o sumiço de Zaratrusta. O doutor realmente não deu as caras na vila por alguns dias e assim Kata voltou a procurar-me.
    - Disse-lhe e você não deu atenção ao caso. Zaratrusta não voltou, não voltou! Preocupo-me e muito! - Disse ela a mim.
    Mais uma vez tentei acalmá-la, mas esforcei-me em vão. E então ela me disse que iria iniciar uma busca pela ilha a fim de confirmar que não acontecera nada de grave com o cientista sumido. Subiu-me um pavor desde os pés à garganta. Engasguei-me. Apavorei-me. Engasguei-me um pouco mais. É claro que Kata não percebeu que engasgava-me com o pavor.
    - Acompanho-te. - Disse após a sessão de engasgos.
Qualquer coisa de importante na minha cabeça disse-me que era meu dever acompanhá-la, pois Kata agora levava suas infundamentadas preocupações para o terreno da ilha, que, como todos sabíamos, não era piedoso com as criaturas que ousavam margear seus abismos.