sábado, 18 de maio de 2013

Praia, inverno e o guarda-chuva de Kata

    "Era uma bela casa num belo canto de uma bela ilha. Pelo menos nos primeiros momentos tudo parecia belo. Realmente era. Sentia algo negativo algumas vezes por ter deixado a Espanha, minha família e principalmente meu adorado ofício. Nessas horas eu me julgava insano, e em outras exagerava em me xingar de imprudente. Mas em pouco tempo se assentava a poeira nervosa densa e escura que me levava às tão negativas autodenominações. Observava muito a natureza; as montanhas ou o mar ou a planície; ou todos juntos me concediam um estado pleno e meditativo.
    Lembro-me que caminhava frequentemente pela orla litorânea nos dias frios... Fazia-me um enorme bem a quietude da praia. Aquela melancolia pálida, quase byroniana, fazia lampejar os pensamentos mais profundos e inúteis no fogaréu de minhas ideias. Sentia-me o rei do mundo, ou talvez o rei da praia, é a mesma coisa, acho. Observava os navios tangenciando a última linha do horizonte oceânico, e rapidamente voltava os olhos para a espuma salgada tão alegre e tão triste que parecia querer desvencilhar-se do mar para aventurar-se em terra. Mas quando a testa gelava demais, um rastro de sinusite avisava que era hora de retornar à casa, e então me dava conta que já havia caminhado muitos quilômetros de distância do vilarejo e voltava pelo mesmo caminho, mas dessa vez observando o casario praiano e as árvores sonolentas de inverno que logo absorviam a cor fúnebre do céu.
    Certa vez, voltando de uma dessas longas caminhadas, identifiquei algo estranho na fachada de minha casa. Ainda estava um tanto longe, mas consegui avistar uma nuvem cor de laranja vibrante acima da porta de minha moradia quando ultrapassei o Farol da Ponta Branca. Pensei que fosse uma alucinação; produto da exaustiva caminha que percorrera meus pés na areia e minha mente na reflexão sobre as coisas. Entretanto, quando aproximei-me de casa, pude ver que a nuvem de cor vibrante não era algo do surreal ou do sobrenatural, era apenas um guarda-chuva que Kata trazia nas mãos para proteger-se da garoa. Ela me esperava na porta e logo inquietou-se quando me viu. "Dê licença meu caro amigo, o momento é um tanto inoportuno, mas tenho que lhe falar algo que anda me tirando o sossego.", esta foi a saudação oscilante com que ela me recebeu. E então a recebi e coloquei-a para o interior de minha habitação. Ou ela mesma colocou-se no interior de minha habitação?..."

Cervantez Vortibus, Memórias Insulares

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