quarta-feira, 1 de maio de 2013

O Romance

          "Ah, estas lembranças doces. Figuras adormecidas que despertaram com córregos brilhantes no tranquilo de minha memória. Que sensação majestosa! Me recordo da semelhante sensação que vivi nos meus primeiros tempos em Esel-Aemp. O luxo... luxo figurativo, porém mais valioso que qualquer jóia pomposa. Sim, o luxo; os céus, as risadas, os olhares, os cantos, as nuvens esbranquiçadas.
         Pareço romântica; sou. Mas romance existe para algum fim. Penso que não há melhor propósito que o meu para se romancear; não existe outra forma de relatar um passado como meu. É digno de mil suspiros, de mil espectadores. Talvez não tenham nem cem, nem cinquenta; nem dez. Mas sei que terá um, e segundo os romances, uma alma vale por mil.
          Traço um caminho de volta ao local de minhas memórias. As ondas quebram. Uma, duas, três. As rochas brilham no sol intenso do dia. Vejo um barco de médio porte, ordinário. Não é incomum; barcos trazem turistas e bens materiais, e levam daqui praticamente os mesmos. Observo com sonolência deliciosa os marujos caminharem até a vila. Dou risada; estou sonhando e não sonhando ao mesmo tempo; é maravilhoso. Os homens estão risonhos. Ou serão risonhos por natureza? Difícil dizer; terra firme é felicidade para qualquer navegante.
          Hoje lembro-me desse dia. Permaneci sentada à beira da praia durante a tarde inteira. O tempo estava bom; viriam pela frente dias chuvosos, e logo em seguida dias frios. Os marinheiros foram levados à casa de Dona Natalina, que naquele tempo funcionava como uma pequena pousada. O navio partiu dali a alguns dias. Me disseram que um rapaz ficou na ilha após a saída de seus companheiros.
         Só sei o que me disseram porque na manhã seguinte do dia previamente descrito saí em uma pequena expedição ao vilarejo vizinho. Me acompanhou o bom Dr. Zaratrusta; minha primeira amizade na ilha, uma pessoa muito querida. Fomos, comemos, conversamos, comemos, conversamos um pouco mais, e voltamos. Nos cumprimentos de nossa volta a Esel-Aemp conheci formalmente o marinheiro singular que permanecera na ilha. Se chamava Cervantez; vinha da Europa e era grande conhecedor de história, filosofia e as demais ciências; ainda é. Achei-o fascinante; ainda acho."




Kata Porttis; Tais Lembranças





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