sexta-feira, 12 de julho de 2013

Ao bosque!

    Eu me senti na obrigação de acompanhar Kata naquela busca. E isso foi o que fiz. Busquei um capote de camurça dentro de casa e fomos àquela peregrinação. Meus olhares eram unicamente para as imperfeições de Kata. Hoje compreendo que as imperfeições eram minhas. Mas eu era um exilado de um Cervantez de alma quieta e pensamento tímido; agora eu vivia num Cervantez de alma ataviada e pensamento extravagante. Mudei-me para a Ilha e desde então denominei-me rei e sábio. Na realidade eu não era nem uma coisa e nem outra.
    Mas enfim, fomos à busca. Kata andava rapidamente. Eu me esforçava para alcançá-la, mas uma raiva ofegante dentro de minha caixa craniana logo me desmotivava. Parecia que tudo em Katalín era um motivo para minha consciência aguçar os nervos do corpo e avermelhar minha cabeça. Mas acho que era efeito do meu desprezo por aquela busca. Gritava para que ela andasse mais lentamente. Procurei uns métodos para me acalmar. Procurei olhar as árvores, as pedras, um lagarto que passasse ou mesmo o céu que já se coloria de crepúsculo para logo se descolorir de sombra. Rapidamente chegamos à margem do lago Wacharia. Estava tão belo, quieto e sereno. Refletia o céu como se fosse um enorme espelho que algum homem colocara naquele espaço desflorestado. Os olhos de Kata refletiam também algo. mas acho que era algo mais profundo, mais incógnito. Ela olhou para o lago e disse "E se Zaratrusta fora engolido por essas águas!?". Que absurdo! Até o vento se pôs contra essa afirmação, abafando sua voz e não deixando que ecoasse para o resto da natureza. Andamos e andamos mais. Seguimos a margem do grande lago que nos olhava e refletia. O escuro da noite chegava. Olhei o céu e algo na memória disse-me que quando o escuro chega é hora de estar em casa. Era a voz de mamãe.
    - Voltemos. É tarde. - Alertei Kata.
    - Certo. Por hoje, basta! Peguemos um atalho por aqui.
    Pegamos o atalho, e não me lembro bem se dei uns palpites para a mudança de caminho, só sei que irritei-me quando retornamos aos pés daquele mesmo lago que estivemos há pouco tempo. Maldisse Kata em meus pensamentos. Minha sonolenta consciência chamou-a de insana umas dez ou trinta vezes. Certamente aquela escuridão da noite não nos deixaria voltar à vila sem algum risco maldoso que a natureza costumava dar de brinde aos enxeridos noturnos. O risco seria menor se subíssemos mais a montanha ao invés de descê-la. Fizemos isto e fomos pedir abrigo ao bispo da igrejinha do alto do monte. A noite era tão escura e escorregadia que não pude ver a igreja direito, portanto não a descreverei. O bispo nos atendeu com extrema má vontade. Também já era de se esperar que o bispo se irritasse com a perturbação de seu sagrado descanso. Era já bem velhinho e tinha um bom tanto de problemas nas costas; um bico-de-papagaio ali, uma costela fraturada aqui e muitos outros incômodos de velhice.

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